Texto #35
O uso pedagógico do celular nas escolas públicas de São Paulo
Gabriel Fusaro e Luis Felipe Hamati
Alteração na lei, aprovada pelo governo em 2017, permite o uso pedagógico do telefone celular nas escolas públicas do estado de São Paulo. A decisão divide opiniões entre profissionais da educação.
Crédito: Pixabay
No dia 06 de novembro de 2017, a Lei nº 16.567 alterou a legislação até então vigente nas escolas públicas de São Paulo, permitindo o uso do celular em sala de aula para fins pedagógicos. A nova determinação prevista em lei visa enquadrar o smartphone como uma possível ferramenta de aprendizado, e para possibilitar a inclusão da tecnologia, o governo prometeu garantir o acesso ao wi-fi e à banda larga nas mais de 5 mil escolas estaduais até outubro de 2018.
A alteração legislativa, entretanto, nem sempre gera resultados perceptíveis no cotidiano escolar, conforme relatou a professora de ETEC Odilene Dantas Azevedo Sá, de 47 anos: “Na prática, nada mudou.” Apesar disso, Odilene afirma o potencial didático do aparelho ao declarar que “fazendo bom uso (do celular) e com a supervisão do professor, não os prejudica (os alunos). Eu utilizo como ferramenta de aprendizagem, mas com limites, é claro”
Do ponto de vista do estudante do terceiro ano do ensino médio Matheus Magalhães de Souza, de 17 anos, a lei trouxe mudanças em sua rotina na escola, porém foram sutis. O aluno da rede pública do estado afirmou que “alguns professores defendem o uso para pesquisa, outros preferem que utilizemos o livro didático e apostila porque acreditam que o celular pode atrapalhar e acabar distraindo o aluno”, porém contou que a diretoria de sua escola é rígida na questão, e o uso ainda é restringido. Quando perguntado sobre o celular prejudicar o desempenho escolar, Matheus conta que “o celular tem suas vantagens em sala de aula quando é usado relacionado à matéria, mas é fato que o celular prejudica quem faz o mau uso”. O estudante ainda afirmou que não há conexão via wi-fi na instituição em que estuda.*
Outro estudante secundarista da rede pública, Igor Barizão, 18 anos, destacou a importância do uso do celular em aula devido à ausência de material didático, por causa da limitada verba cedida do governo às instituições de ensino. “Estudei em colégios onde os professores utilizavam dicionários e calculadoras científicas online com os alunos e isso só era possível graças ao celular”, relatou. O jovem também declarou não haver internet via wi-fi em sua escola.*
Crédito: Reprodução ENEM.estuda.com
É importante ressaltar que a legislação em questão, decretada em 2017 pelo então governador Geraldo Alckmin, não permite o uso irrestrito do aparelho em sala de aula. Seu uso deve ser feito exclusivamente visando fins pedagógicos, conforme explica o primeiro artigo da lei: “Artigo 1º - Ficam os alunos proibidos de utilizar telefone celular nos estabelecimentos de ensino do Estado, durante o horário das aulas, ressalvado o uso para finalidades pedagógicas.” Desta forma, tudo o que a legislação em questão fez foi alterar a Lei nº 12.730 de 2007, abrindo uma exceção para o uso didático do telefone móvel nas salas de aula.
Contudo, a dificuldade de restringir as diversas atividades online dos alunos durante aula é um problema enfrentado pelos professores e direções. Aplicativos de mensagens, de reprodução de áudio e de vídeo, jogos e redes sociais estão entre as funcionalidades mais utilizadas pelos jovens na internet. De todos os internautas brasileiros, 94,6% afirmaram utilizar a rede para trocar mensagens e 76,4% disseram utilizar para assistir vídeos. Os dados são do IBGE, coletados no final de 2016. Visto isso, é fácil imaginar que uma parcela dos estudantes paulistas navegue na internet irrestritamente durante a aula.
É nesse sentido que Flávia Dantas, diretora de escola, expõe suas críticas ao uso do celular na sala de aula. Ela conta que os alunos começaram a tirar fotos de professores para publicar em grupos na rede social, prejudicando a imagem dos profissionais. Isso têm levado os professores da instituição a reclamar do uso dos smartphones. Para Flávia, não é a legislação que vêm causando esse tipo de problema, e sim o tempo excessivo que os jovens passam online. “Não tem mais controle, eles simplesmente usam”, afirma a diretora. Questionada sobre a utilização da tecnologia em questão a favor do processo didático, afirmou que “a gente até tentou, mas os alunos só ficam nas redes sociais. A tendência é só piorar”.
Ao ser consultada, a Secretaria da Educação do Estado apresentou o release divulgado em 2017. Na ocasião, o então governador Alckmin declarou:
“A Secretaria de Educação tem feito um excelente trabalho de tornar a escola mais atraente para os jovens e de melhorar a qualidade do ensino. A internet no celular abre inúmeras possibilidades de atividades e pesquisa. Será um grande salto em benefício dos alunos.” Entretanto, conforme foi relatado à reportagem, nem sempre as escolas utilizam os aparelhos eletrônicos como ferramentas pedagógicas, seja por falta de estrutura, seja por decisão das instituições e dos profissionais da educação. No mesmo documento divulgado, a questão estrutural das escolas foi mencionada, garantindo a instalação da conexão banda larga e sem fio: “Até outubro de 2018, todas as 5 mil escolas estaduais serão equipadas com sistema wi-fi e banda larga. A novidade faz parte do novo plano tecnológico anunciado pelo governo de São Paulo e que irá modernizar a rede.” A melhoria na velocidade e na estabilidade da conexão com a internet também foram prometidas, através do Programa Intragov (órgão do governo) e da Telefônica. Além disso, o monitoramento e o filtro de conteúdos acessados serão mantidos, como forma de controlar a navegação online dos estudantes.
* A informação a respeito da ausência de wi-fi nas escolas mencionadas pelos alunos entrevistados é válida no momento de publicação da matéria, dia 24/10/2018. Atividade utilizada como trabalho na Graduação de Jornalismo Gabriel Fusaro, 24/10/18
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